sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Pero que las hay, las hay

Parámos o carro alugado numa rua deserta àquela hora, nas imediações da zona portuária. Era relativamente tarde. Tínhamos jantado num restaurante de comida mexicana em Harvard, de ambiente aquecido pela frequência jovem e pela profusão de margueritas. Enfrentámos, por isso, sem dificuldade, o frio da noite na zona baixa de Boston. Nenhum de nós estivera antes na cidade, não sabíamos o que podíamos encontrar. Os contactos que nos estavam destinados tínhamo-los deixado à saída do restaurante.
O movimento e a iluminação das ruas, com os edifícios fechados, eram escassos. Começáramos a duvidar do acerto da escolha, quando desembocámos numa pequena praça rectangular, aberta de um dos lados. Dispostos ao longo dos passeios, presumivelmente junto das casas onde ficavam recolhidas durante o dia, encontrámos bancas de frutas e bebidas não alcoólicas acamadas em gelo moído. As bancas estavam assentes em apoios com rodas e engalanadas com balões e recortes de papel colorido. Começava ali a animação nocturna da praça. No tabuleiro central, dois quiosques de traça oitocentista, onde se vendiam máscaras, velas, bonecos insufláveis, bruxas de pano e de madeira, um sem número de alfaias do Halloween. - Oh, então é isso? – exclamou o António, que já fizera antes visitas prolongadas aos Estados Unidos, identificando, antes de qualquer um de nós, o significado daquele cenário. – A Festa das Bruxas! Adultos e crianças, vestidas com indumentárias alusivas e transportando velas e abóboras iluminadas circulavam na praça, gritando e pulando em pequenos grupos, provocando-se uns aos outros.
Deixámo-nos envolver por aquele ambiente estranho para nós. Adquirimos máscaras e velas, vassouras e panos e procuramos um banco para fazer a nossa festa de sumos e batidos de frutas exóticas. Naquela praça, todos os bancos tinham um lugar ocupado por uma estátua em bronze de uma personalidade – escritor, cineasta, centista, político – com ligação ao local. Escolhemos para companhia um personagem singular, pois tinha um pé sobre o banco enquanto o outro estava cravado ao chão, em pose de amena conversação com um amigo imaginário que permanecesse sentado.
– Boa noite, és servido? – perguntei eu delicadamente.  
– Não te queres sentar? – perguntou o Nuno, e todos sorrimos. Mas o nosso interlocutor não se deu por achado. – Preciso de uma máscara – proferiu, num inglês de pronúncia britãnica. – Aqui tens - exclamou o experiente António, no Halloween tudo é possível, até as estátuas falarem. – Fica com a minha – disse eu – usarei a que comprei para oferecer ao meu filho Pedro. Era uma cara de bruxa de cabeleira desgrenhada. O António colocou-lhe na mão uma vassoura e o Nuno atou-lhe à volta da cintura um saiote preto com remendos.
Conversamos animadamente toda a noite. De Boston e Lisboa, com um saltinho até às Caldas, de que o nosso interlocutor (um jornalista que fizera a cobertura da famosa “Revolta do Chá”, como nos confidenciou) lamentavelmente ainda não ouvira falar.
Partimos, com a manhã rondando o horizonte. Não escondemos a emoção da despedida. Ele recusou delicadamente todas os convites que lhe fizemos. – Lamento, mas tenho que ficar, tenho ainda muitas reportagens para fazer. Não posso abandonar, nem por um dia, esta praça. Mas gostaria que levassem convosco uma lembrança deste noite. Eu posso adivinhar o que farão daqui a 20 anos. 
Olhámo-lo intrigados e curiosos. Daqui a 20 anos? Caminharemos então para os 60 anos. Estaremos vivos? Continuámos a recolher os adereços. O Nuno retirou o saiote.  – Tu serás Ministro da Defesa! – sentenciou a estátua. O António recuperou a vassoura. – Tu serás comentador da Televisão e da Rádio. Eu fui-lhe tirar a máscara. – Tu … não vejo muito nítido o que farás daqui a 20 anos. Vejo-te a andar de um lado para o outro. Que estranho: há um aplauso.  – Um aplauso? – Sim, um aplauso, uma seta para cima. Terás uma na 
Gazeta das Caldas. Eu devo ter franzido a testa, incrédulo. Mudando subitamente do inglês britânico para o castelhano hispânico, acrescentou: – No creo en las brujas, pero que las hay, las hay.
* * *
Aceitando  sugestão do Pedro, um video de Mestre Tim Burton:

Europa de cafés

Confesso que gostei de Uma Certa Ideia da Europa menos do que queria, correspondendo mal ao belo gesto da Ana que me ofereceu o seu próprio exemplar quando nos encontrámos em Paris, num café (de facto uma daquelas esplanadas envidraçadas) dos Campos Elísios. Ana leu-me aquela abertura do texto e, por momentos, devo ter partilhado com ela o  mesmo sentimento de identificação com Georges Steiner que nos incluiu, por via de Pessoa e dos cafés, no roteiro da ideia de Europa que estabeleceu. Traduzo, a partir da tradução francesa: "Os cafés caracterizam a Europa. Vão desde o café preferido de Pessoa, em Lisboa, até aos cafés de Odessa, frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Estendem-se desde os cafés de Copenhaga, diante dos quais Kierkgard passava nos seus passeios de meditação, até aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou característicos em Moscovo que é já periferia da Ásia. Muitos poucos em Inglaterra, após uma moda efémera no século XVIII. Nenhum na América do Norte, se exceptuarmos a antena francesa é Nova Orleães. Desenhe-se o mapa dos cafés e obter-se-á um dos quadros essenciais da noção de Europa" (Georges Steiner, Une Certaine Idée de l'Europe. Trad. francesa, Actes du Sud, 2005. p. 23).
Estávamos em 2005. Não adivinhávamos que a edição portuguesa viria a ter aquela tradução desastrada e muito menos que recairia em Durão Barroso, escolha inexplicável, a elaboração do prefácio. Espero que o meu fraco entusiasmo pelo ensaio não tenha sido influenciado por estes factos aleatórios.
De qualquer modo, se erigir o roteiro dos cafés ao estatuto de roteiro fundamental da Europa é um achado e um achado sugestivo, não parece muito consistente.  José Barreto, um especialista na história ( e na geografia) dos cafés (a propósito, amantes de café e de cafés, não percam o seu blog, culto e um pouco azedo como convém, mas recheado de informação pertinente e quase sempre  interessantes imagens) contestou-a com soma de argumentos convincentes.
Se a noção de Europa se corporiza nos seus cafés, há várias décadas que começou a perdê-los. Mantiveram-se com esforço alguns cafés históricos, mas os cafés que sobreviveram nas ultimas décadas perderam as funcionalidades que estavam associadas ao acto de beber café e às pessoas que neles paravam – para conspirar, para namorar, para jogar, para observar, para obter informações orais ou escritas, para ver e ser visto, para estudar, para conversar, para beber café e para fumar.
Dos meus cafés, sobram poucos. Nas Caldas, perdi o Lusitano (que aqui podemos ver numa reprodução de um anúncio de 1912), em Lisboa a Capri, o Londres, o Monte Branco, o Monte Carlo. Mas ainda são visitáveis a Biarritz, a Suprema, o Luanda. Em Almada, onde o Carlos Cáceres Monteiro me levou para conhecer a namorada e apresentar a uma amiga momentaneamente solitária, não sobreviveu nenhum daqueles onde aguardavamos ansiosos. Em Castelo Branco, onde dei as primeiras aulas (1970/71) foi em vão que procurei, há tempos, os pontos de encontro com os alunos quase da minha idade. Se foi nestes cafés que a ideia de Europa foi construida (enigmática embora sugestiva metáfora), a sua estrutura material está hoje seriamente abalada. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A democracia com o bébé ao colo

Jean-Paul Fitoussi recorda hoje no Le Monde a alegoria de Schumpeter, referindo-se à acção do Estado Democrático em situação de crise do capitalismo. Na iminência de paralização das funções vitais, o capitalismo é submetido a uma "tenda de oxigénio".
Recorda Fitoussi o tempo de Reagan e Thatcher que desmantelaram a "tenda", criando condições para que a lei bancária se impusesse à lei do mercado. O resultado foi uma mentira global, a "promessa de que seria possível dar a ganhar a todos mais do que  a média dos lucros" (de facto, "uma impossibilidade aritmética").
E agora? Como a "tenda de oxigénio" foi destruída, o capitalismo deu entrada na "sala de reanimação". 
Mais uma vez é a Democracia, com a sua "tendência para se ocupar de tudo" que se apresta a abrir a porta, equipar a sala e garantir o funcionamento. É realmente uma jovem, conclui Fitoussi. Tem o síndroma do "bébé ao colo". 

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Novembro está quase a chegar


 Eu quero uma casa no campo 

"Paredes de louça"

Sónia Sapinho é diplomada em Design e Tecnologia para a Cerâmica pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Integrou, aliás, a primeira turma daquele Curso, quando a escola foi fundada, em 1990. Leccionou na António Arroio.
Tem trabalhado em artes gráficas e cerâmica (além de música, nos Conservatórios de Setúbal e das Caldas).
Realizou projectos para as empresas A. Santos, Revigrés e Molde. Com esta empresa, tem desenvolvido intervenções em "azulejaria táctil", modalidade de relevo especialmente concebido para o revestimento de instalações escolares. Nas salas de convívio do complexo escolar dos Arcos, em Óbidos, recentemente inaugurado, os azulejos da Sónia "animam" as paredes e os meninos.




Guarda-Livros (IV)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Cidadão Mário Gonçalves

Conheci o Dr. Mário Gonçalves em 1978. O médico da minha mãe, nas Caldas da Rainha, tinha concluído que ela devia ser operada à tiróide. Resolvi pedir uma segunda opinião e levei-a ao Dr. Gardette Correia. Este corroborou a decisão do primeiro médico. Perguntei-lhe se tomava ele a seu cargo a operação e ele retorquiu: "Não é preciso. Há um excelente cirurgião nas Caldas: o Dr.Mário Gualdino Gonçalves".
A minha mãe conhecia o Dr. Mário dos bancos da ecola. Ficou confiante, apesar da delicadeza da cirurgia. Quando tudo terminou, pediu-me que encontrasse uma lembrança para testemunhar ao antigo companheiro escolar a sua gratidão. Informei-me sobre os gostos do médico e adquiri um exemplar encadernado de Poeta Militante de José Gomes Ferreira.
Meia dúzia de anos mais tarde, cruzar-me ia com o Dr. Mário Gonçalves em diversas jornadas do V Centenário da Fundação do Hospital e das Caldas e nas eleições autárquicas de Dezembro de 1985. Integrei, como independente, a lista do PS para a Assembleia Municipal das Caldas da Rainha, que ele próprio encabeçava. Foram eleitos três vogais por esta lista, sendo eu exactamente o terceiro. Durante quatro anos, sob a sua liderança informada e sólida, exercitei a dura tarefa de ser oposição combativa num órgão hegemonizado por uma larga maioria de um só partido. A minha admiração e a minha amizade pelo Dr. Mário Gonçalves consolidaram-se nesta particular circunstância.
Na primeira metade da década de 90 ajudou-me a construir a associação Património Histórico-Grupo de Estudos. O Conselho de Administração do Centro Hospitalar, a que presidia desde 1974, cedeu sede e apoios logísticos, patrocinou edições e ajudou a encontrar mecenatos. Também me acompanhou em diversas diligências para a instalação da Escola Superior de Artes e Design (entre 1989 e 1990) e foi com ele que se estabeleceu o acordo que permitiu que a ESAD ocupe hoje instalações que estavam afectas ao Centro Hospitalar e onde se localizava o Hospital de Santo Isidoro. Por meu turno, fui seu vice-presidente na Direcção da Casa da Cultura, colaborei activamente na coordenação científica do projecto que levaria à criação do Museu do Hospital e das Caldas inaugurado em 1999 e integrei uma pequena equipa que constituiu para formular um projecto de reconversão dos Pavilhões do Parque e anexos numa unidade hoteleira e clínica termal a concessionar a privados. Em 1995 pedi-lhe que aceitasse presidir à Comisssão de Honra municipal da candidatura presidencial de Jorge Sampaio, de que eu era mandatário. Foi um enorme prazer organizar com ele nas Caldas da Rainha essa memorável campanha (Novembro de 1995 a Janeiro de 1996).
As ocasiões em que a mútua solidariedade foi testada e reforçada, a partir de então, não cessaram. Recordo-me particularmente de dois momentos delicados: o encerramento do Hospital Termal em razão da detecção de uma contaminação bacteriológica e a reorganização dos serviços de saúde implicando uma nova inserção territorial do Centro Hospitalar caldense.
Em 18 de Junho de 1999, por ocasião da sua aposentação, um grupo de cidadãos, de que fiz parte, organizou uma festa para testemunhar a gratidão "por uma vida à vida inteiramente dedicada". O escultor José Aurélio elaborou uma peça alusiva. A associação Património Histórico editou um livro com depoimentos, curriculum e fotografias do homenageado.
De 1999 a esta parte, prossegue sem desfalecimentos, a acção cívica: no Conselho da Cidade, nas associações de Amigos dos Museus, sugerindo, discutindo, organizando, liderando. É um privilégio para uma cidade contar assim com o empenho e a visão esclarecida de um homem experiente e sábio e a disponibilidade para participar na vida associativa de um militante de nobres causas.
Oportunissima a homenagem que hoje o Rotary Club das Caldas da Rainha prestou a Mário Gualdino Gonçalves. Motivo de regozijo para os seus amigos e admiradores.





Capa do Livro de Homenagem editado em 1999. Org. de Fátima V. Lino, F. Paulo Monteiro, J. B. Serra, J. A. Santos Silva, J. L. Almeida e Silva, Leonor Salvo, Orlando Santos, Óscar Ferreira, P. Pessoa de Carvalho, com apoio de Eduarda Maria Fernandes.
[Exemplares disponíveis; pedidos a caldas.ph@gmail.com]

Três meninas loiras brincando

No jovem Pancho Guedes, a paixão pela pintura manifestou-se antes da opção pela arquitectura e não mais o abandonou.
Legendas das imagens que acompanham o post anterior:

- planta da cidade de Maputo assinalando intervenções de Pancho Guedes (1951-1975). Miguel Santiago, Pancho Guedes: Metamorfoses Espaciais. Casal de Cambra, 2007.
- Escola clandestina no Caniço (1969)
- Jardim-Escola Piramidal (1966)
- Diversos edifícios de empresas e habitação na área central de Lourenço Marques
- Escola Primária da Missão Suiça, Escola Superior de Enfermagem, Casa Vermelha
- Padaria Saipal ("O Pão da Cidade"), 1952
- "O Leão que Ri", bloco de apartamentos e escritórios (onde Pancho teve atelier), 1956.

domingo, 26 de outubro de 2008

As esquinas de Pancho Guedes

Amâncio d'Alpoim Miranda Guedes, conhecido por Pancho Guedes, nasceu em Lisboa em 1925. Mas a sua actividade de arquitecto desenvolveu-se sobretudo em Moçambique e na África do Sul.
Em Lourenço Marques, onde trabalhou quase 25 anos (entre o princípio da década de 50 e 1975) deixou marca em toda a cidade. Marca de uma criatividade exuberante aliada a um exigente rigor formal, onde a arquitectura é anfitriã de outras artes, nomeadamente a pintura. Pancho Guedes deu um contributo fundamental para materializar na cidade o cosmopolitismo de que justamente se orgulhava, ao mesmo tempo que ajudou a projectar na região e fora dela os valores da singular criatividade dos seus residentes.
Conheço mal Maputo, que apenas pude visitar por duas curtas ocasiões. O suficente, porém, para a ter como inesquecível. Houve duas pessoas que me ensinaram a amar esta cidade onde quero voltar. Pancho Guedes é evidentemente uma delas.




Durante vinte e cinco anos em Moçambique, inventei e construi edifícios suficientes para formar uma cidade de tamanho considerável. Uma cidade imaginária, mas bem provável, caótica e composta de memórias, uma cidade de várias pequenas e dispersas facilidades de regularidade obsessiva [Pancho Guedes, An Alternative Modernist, 2007]











O aeroporto aqui tão perto

As obras da av. Santos e Castro e as demolições do antigo bairro das Calvanas colocaram o aeroporto ao alcance visual de quem circula na estrada que dá acesso da Alta de Lisboa à Segunda Circular.
É agora frequente encontrar, ao fim de semana, pessoas a observar o movimento dos aviões, uma vez que um corredor de aproximação à pista passa por cima da rodovia. Ontem, além de pais a mostrar aos filhos o vai-vem dos aviões, havia carros com gente a ouvir música e a apreciar a paisagem. Li algures que estaria projectada para aquela área um restaurante com miradouro.
O movimento de chegadas e partidas continua a suscitar o fascínio dos portugueses. Vemos as dos outros, enquanto não chega a nossa vez.

Ante-estreia

5o minutos imperdíveis (seleccionados de um total de 30 horas!) de um fascinante documentário que Jorge Silva Melo fez para a Caixa Geral de Depósitos sobre a "aventura" que juntou, entre os anos 50 e 70, um conjunto notável de artistas plásticos portugueses (e alguns estrangeiros) em torno da confecção de gravuras, litografias, serigrafias, etc. As imagens são belas e claras, os depoimentos ricos e únicos, a montagem viva e inteligente. E que magnífica exposição de gravuras se reuniu aqui!
Houve um momento em que os caminhos da gravura e da cerâmica se cruzaram, com Jorge de Almeida Monteiro (Bombarral), Querubim Lapa, Eduardo Nery, Júlio Pomar, Alice Jorge, António Quadros, Hansi Stäel, Ferreira da Silva (Caldas da Rainha, Secla/Estúdio). O documentário mostra isso muito bem (espero ter ajudado o Jorge a concretizar essa redescoberta).
Há momentos divertidíssimos no filme. O mais saboroso é sem dúvida o depoimento de Paula Rego que o Jorge foi recolher ao atelier da artista em Londres. Absolutamente único pela ironia, a espontaneidade e a graça. O grande auditório da Culturgest não parava de rir.

video
Aproveito para deixar aqui a versão integral do depoimento gravado por Jorge Silva Melo com Ferreira da Silva, no Museu Municipal do Bombarral, a 21 de Março deste ano de 2008. Temas de conversa: Jorge Almeida Monteiro,  a Secla, Hansi Stäel, António Quadros, Júlio Pomar e outros.

sábado, 25 de outubro de 2008

Vermelho e verde

Manhã de sábado destinada a acompanhar os meus alunos de História das Ideias numa visita à exposição José Relvas, um Conspirador Contemplativo, na Assembleia da República. Presença de seis convidados especiais, incluindo o coordenador do Mestrado e outra professora da ESAD. Oportunidade para apresentar aquilo de que não se fala nas habituais visitas guiadas: o que está por detrás de uma exposição. A construção do guião, com os problemas de definição dos núcleos expositivos e a transição entre eles. A percepção do espaço de exposição e as adaptações que é necessário nele introduzir. O caso específico da Assembleia, um edifício com grande peso simbólico, compromissos inúmeros e dificilmente contornáveis. As questões técnicas que é preciso resolver: do restauro ao transporte, da montagem ao catálogo.
Uma exposição é sempre, como o nome indica, uma narrativa. Quem a conta raramente tem a possibilidade de explicar porque a conta assim e não de outra forma. E ser questionado pelas opções tomadas.

E/ou. E, em vez de ou.


Comunicações e debate sobre património e urbanismo no Refeitório dos Frades em Alcobaça. Pedro Ribeiro, engenheiro civil da equipa de João Appleton, membro da associação Património Histórico, explica, com exemplos extraídos da sua experiência (edifícios pombalinos em Lisboa, Abadia de Alcobaça, Estúdio Carlos Relvas na Golegã) o que reabilitar, como reabilitar e porquê reabilitar. A sua exposição põe em evidência vantagens comparativas que permitem equacionar a reabilitação urbana como uma opção económica, amiga do ambiente e qualificadora da cidade.
O arquitecto Gonçalo Byrne aponta a situação em que se encontra a generalidade dos centros históricos: em perda, abandonados, decadentes. Mas adverte: os problemas podem gerar hipóteses de regeneração urbana. A pior atitude é nada fazer. Se nada se fizer, no final teremos apenas ruinas. A reabilitação do património evita  a ruina e revitaliza a envolvente urbana.
Peço-lhe que nos faça um balanço das políticas urbanas para os centros históricos das últimas décadas. É crítico da descontinuidade das políticas que aponta como principal responsável pelo respectivo insucesso. As decisões que temos de tomar são de curto prazo umas, de médio e longo prazo outras. E aponta duas direcções: as políticas urbanas têm de fazer do cidadão o centro de todas as coisas e têm de deixar ser tão disjuntivas ("ao ou ou, prefiro o e").

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Intolerance (I)


Conta-se que quando terminou as filmagens de Intolerance, David Griffith (1875-1948) tinha cem mil metros de película, correspondente a setenta e seis horas de projecção. À história que constituira o ponto de partida - uma greve sangrentamente reprimida - juntara três reconstituições históricas (a Paixão de Cristo, a queda de Babilónia, a Noite de São Bartolomeu) com recurso a meios complexos e dispendiosos. O filme, estreado em Setembro de 1916, acabaria por ficar com três horas.
Grifith, escreveu João Bénard da Costa, definiu o cinema tal como o conhecemos hoje, a indústria cinematográfica e as tensões entre a indústria e a arte. O cinema como montagem, alternando histórias, de forma ora mais lenta ora mais rápida, ora distinguindo os tempos, ora fundindo-os. A indústria como produção de espectáculo para um público consumidor. Mas o cinema também como específica expressão artística de um autor (Intolerance está recheado de marcas de autor, por vezes até um pouco extravagantes).
Mas o que mais me impressionou em Intolerance foi, se me posso exprimir assim, a afirmação do ponto de vista. A acção é sempre apresentada por um ponto de vista, o olhar sentido ou pressentido de um personagem, frequentemente uma mulher. Desde o leit motiv, a mulher que empura o berço do bébé, à jovem montanhesa rebelde que se apaixona por Bartazar, à jovem mãe a quem as reformadoras retiram o filho e a lei ameaça o marido.
Intolerance não teve a fortuna do seu antecessor, The Bird of a Nation (1915) e Griffith ficou a pagar dívidas até à morte. A Europa, em plena Grande Guerra, recebeu o filme sem simpatia censurou-o drasticamente.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Cinderelo dos pés grandes

Perdeu-se o rasto de "Cinderfella". O passo, o olhar, a respiração. O improviso. 
Quem o viu, o quer, o espera?


A hora da política (IV)

No seu comentário semanal (Público, 20 de Outubro), naquele estilo discreto que esconde cruas observações e premonições, Francisco Sarsfield foi buscar o slogan que celebrizou a extrema esquerda no PREC: "Os ricos que paguem a crise". Adapta-o ao sentido dominante com que teríamos vindo a encarar as dificuldades: "O futuro que pague a crise".
A hipoteca sobre o futuro não é o resultado da desregulação dos mercados do dinheiro e das acções. Como houve quem tivesse dito muito antes da questão do "subprime", ela deriva do modelo de desenvolvimento, ou melhor de consumo, baseado num circulação vertiginosa do crédito.
De facto a dívida - tanto a das pessoas como a das organizações e do Estado - remete para as gerações que nos seguem o respectivo saldo. Temos esse direito? Evidentemente que não temos.
Quando há poucos anos visitei a Noruega, pude ouvir da boca de um dos responsáveis políticos os termos da discussão havida sobre esta questão da responsabilidade, a propósito da utilização dos recursos decorrentes da exploração do petróleo. Como é sabido, as autoridades políticas noruguesas adoptaram regras estritas sobre o acesso das actuais gerações aos benefícios da extracção de petróleo, criando um fundo de reserva para o futuro.
O risco principal de uma atitude de indiferença perante o futuro não reside apenas - que já seria inaceitável - na delapidação de recursos não renováveis que recebemos das gerações que nos precederam; está na criação de ónus que só se efectivará quando as novas gerações tiverem que lidar com a gestão do seu próprio presente e do seu próprio futuro.
Antecipar o futuro, tomar decisões em nome do futuro, investir na produção futura , garantir ao passado um horizonte de futuro sempre constituiu o ensejo das mais significativas criações humanas, da ciência à filosofia, da arte à política. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

José Relvas, o conspirador contemplativo


Até 29 de Novembro na Assembleia da República. A exposição fala do homem que reuniu uma impressionante colecção de artes na sua Casa dos Patudos, proclamou a República a 5 de Outubro de 1910 em Lisboa e instituiu o escudo como moeda nacional.
Comissariada pelo professor João B. Serra e no âmbito do programa comemorativo do centenário da República, a exposição compõe-se de 11 núcleos distribuidos pelos seguintes espaços da Assembleia da República: arcadas junto ao Átrio Principal, Átrio Principal (entre a Escadaria e os sinos), Escadaria Nobre, topos da Escadaria, corredor da Sala Acácio Lino, corredor paralelo à Biblioteca e Refeitório dos Monges (este último espaço acolhe o núcleo dedicado à colecção de arte de José Relvas). As visitas guiadas realizam-se em grupos com o máximo de 30 pessoas, mediante marcação prévia. Veja aqui uma breve apresentação.

Ciclo de Cinema na ESAD


Dia 22/10/08 – Intolerance, D. Griffith, 1916
João B. Serra (Historiador)
Dia 29/10/08 – 
A Caixa de Pandora, Pabst, 1929
Maria Lúcia Lepecki (Ensaísta)
Dia 05/11/08 – 
West Side Story, R. Wise/Robbins, 1961
Vasco Wellenkamp (Coreógrafo)
Dia 12/11/08 – 
Macbeth, O. Welles
José Pedro Serra (Prof. Universitário)
19/11/08 - Alice in the Cities, W. Wenders, 1974
Moderador a confirmar
Dia 26/11/08 – 
Frankenstein, J. Whale, 1931
Alexandre Quintanilha (Biólogo)
Dia 3/12/08 – 
Relíquia Macabra, J. Huston, 1941
Laborinho Lúcio (Magistrado)
Dia 10/12/08 – 
Apocalypse Now, F. F. Coppola, 1979
Garcia Leandro (Militar)
Dia 14/01/09 – 
Onde Jaz o teu Sorriso?, Pedro Costa, 2001
José Neves (Arquitecto)
Dia 21/01/09 - Cartas a uma Ditadura, Inês de Medeiros, 2008
Irene Pimentel (Historiadora)

Guarda-Livros (III)


Guerreiro da Tunísia


domingo, 19 de outubro de 2008

Candidatos a Lisboa

Que pode fazer Manuela, em Lisboa 2009?
Talvez inspirar-se em Sampaio, também Lisboa 1989.

Dançarinos


sábado, 18 de outubro de 2008

Esquinas de Alesund

23 de Janeiro de 1904, a cidade norueguesa de Alesund, ficou praticamente destruida por um incêndio. Os seus quase 12000 habitantes viviam em casas de madeira.
No dia seguinte, porém, todos se mobilizaram em torno da reconstrução. As autoridades planearam uma nova cidade, procurando compatibilizar uma identidade comum com a individualidade de cada uma das edificações, agora construídas em pedra e em tijolo.
O plano foi executado rapidamente: entre o Verão de 1904 e o Outono de 1907. Muitos dos arquitectos chamados a intervir na reconstrução conheciam as propostas do movimento Arte Nova e desenvolveram-nas nos seus projectos. O resultado é que hoje a área central de Alesund é uma singular exposição de arquitectura Arte Nova.





sexta-feira, 17 de outubro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Hora de balanço, hora de agenda

15 de Outubro: abertura do ano lectivo no Instituto Politécnico de Leiria. Luciano de Almeida, Presidente cessante, faz o balanço que quer centrado na situação do ensino superior cujos pontos negros indica: rede pulverizada e sem dimensão, tensões excessivas entre os dois "subsistemas" (universitário, politécnico), critérios de financiamento público desajustados, regimes de acesso a precisar de urgente revisão, identificação das faltas de qualidade por fazer; instabilidade do corpo docente (só 85% dos docentes do enino superior têm vínculo duradouro às instituições). Mariano Gago, Ministro em exercício há 3 anos faz o elogio do contributo do Ensino Politécnico para o crescimento do acesso ao ensino superior e indica a agenda política a que está subordinado este "subsistema": ampliar a oferta de Cursos de Especialização Tecnológica, estabilizar o corpo docente (de facto, diminuir a percentagem de vínculos precários para 60%), dar conteúdo à categoria de especialista, qualificar o corpo docente do ponto de vista académico e profissional, estabelecer consórcios (federando as instituições existentes ou criando novas), reajustar a identidade do ensino politécnico (formações de 1º ciclo, articulação com o desenvolvimento regional, etc.).
O minimo que apetece dizer é que, depois do impacte tão violento e definitivamente mal acautelado de Bolonha, da imposição de um critério geral de base estritamente  universitária como padrão de qualidade e de uma reforma centralista do sistema de governo das instituições, não se avançou muito no discurso, no elan reformador e na identificação das metas. Há mais de uma década que os desafios apresentados são mais ou menos estes. A sala pareceu-me longe do entusiasmo de outros anos, mas posso estar enganado.

Português AEIOU

A Gravura: esta mútua aprendizagem


Grande Auditório da Culturgest, 25 de Outubro, 18h30
Um documentário de Jorge Silva Melo
Depoimentos de António Charrua, Bartolomeu Cid dos Santos, David de Almeida, Eduardo Nery, Fernando Calhau, Fernando Conduto, Ferreira da Silva, Guilherme Parente, Humberto Marçal, João Paiva, Joaquim Barata, Jorge Martins, Julião Sarmento, Júlio Pomar, Manuel Baptista, Manuel Torres, Maria Beatriz, Maria Gabriel, Maria Velez, Nikias Skapinakis, Paula Rego, Querubim Lapa, Rogério Ribeiro, Sérgio Pombo, Teresa Magalhães, Tereza Arriaga e Vitor Pomar.

Um documentário sobre a Gravura, a cooperativa de gravadores portugueses fundada em Lisboa, em 1956, por um grupo de artistas e intelectuais. Através de quase três dezenas de depoimentos, retrata-se aqui a sua história, e as suas consequências, a sua origem nos movimentos de oposição à ditadura, numa improvisada garagem de Algés. E sobretudo, a necessidade que os artistas sentiram de aprender em conjunto, de se organizar, aprender e ensinar ao mesmo tempo. Um momento único de camaradagem, aprendizagem, intercâmbio, um momento político na História das Formas.

Pode dizer-se que a gravura moderna tem origem exactamente em 1956, quando se formou a Gravura. E pode falar-se de aventura. - escreveu Fernando de Azevedo, em 1976. Se digo aventura, é porque de facto o foi, sabido que todas as aventuras comportam riscos. Que risco não seria, então, congregar artistas e coleccionadores, os primeiros tentando o que não tinham sequer aprendido, tentando os segundos acompanhá-los sem o terem aprendido sequer. Esta mútua aprendizagem é uma das coisas bonitas que aconteceram nos últimos anos da vida artística portuguesa.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Mulheres contra Sarah Palin

Na campanha presidencial americana de 1991, os conselheiros de Bill Clinton viram no voto feminino o factor decisivo da eleição. Identificaram então como alvo preferencial das acções de campanha o segmento do que ficou conhecido como "as mamãs do futebol": mulheres, autónomas na vida profissional e social, de 30 a 45 anos, que aos sábados levavam os filhos aos campos de treino de futebol (um desporto que não integra o desporto escolar, mas que tinha cada vez mais adeptos nos Estados Unidos, em grande parte devido à crescente presença hispânica no país). A extensa reportagem que o Le Monde publicou ontem sobre a importância da mobilização das mulheres na actual disputa Obama-McCain recoloca o tema do comportamento eleitoral feminino. A escolha de Sarah Palin como candidata à vice-presidência por parte do Republicanos, aparentemente em resposta à intervenção de Hilary Clinton na campanha dos Democratas, parece ter tido consequências perversas. Multiplicam-se os movimentos de mulheres contra a candidata que, em resposta a uma pergunta sobre a sua inexperiência em política externa, respondeu "Conheço bem  as questões russas. Vejo a Rússia da minha janela no Alaska". 
Os estrategos de Obama concentram agora a sua atenção sobre as mulheres judias, sector onde aparentemente a contra-propanganda que associa Obama ao Hamas fez o seu curso. Mas a questão central aqui parece ser aquela que se deduz de uma entrevista também publicada no Le Monde a uma mulher judia a quem o jornalista pergunta em quem vai votar e ela responde: "No candidato que o meu marido indicar". O jornalista fica surpreendido e ela explica: "Somos judeus ortodoxos e tenho um acordo com o meu marido: ele toma as decisões de carácter social e eu as de carácter familiar; de modo que ele toma uma decisão por mês e eu várias por dia."

Tienda de cerâmicas

Forum: Alcobaça, 24 e 25 de Outubro


terça-feira, 14 de outubro de 2008

"Ponha aqui o seu pézinho"

Ana Sobral, Sapatos Vermelhos, 2007




Ana Maria Sobral é uma ceramista nascida em Moçambique e radicada nas Caldas desde 1980. Reside e tem atelier na Foz do Arelho. Expõe desde 1988. É membro fundador do colectivo 3Cs, que se tem apresentado em S. Martinho numa mostra anual de Cerâmica Criativa Contemporânea.
Ana Sobral é uma ceramista de excelentes recursos. As suas peças mais conhecidas são superfícies que denunciam tanto a plasticidade como as "impurezas" da matéria cerâmica em contraponto com a cor derivada de uma pintura de traços simples mas de grande eficácia. À VIII Bienal de Cerâmica Artística de Aveiro, realizada em 2007, apresentou um vestido e uns sapatos em cerâmica, no que parece ser uma sua nova linha de trabalho.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

"Livro para mim é vida"


Evando dos Santos, pedreiro, deparou-se um dia com 50 livros que alguém destinara ao lixo. Estávamos em 1998. Esse encontro mudou a sua vida. O pedreiro desembaraçava-se na leitura, que exercitara aos 18 anos, lendo a Bíblia, mas tinha dificuldades na escrita. Na escola primária, não terá ido além do 2º ano. 
Trouxe os livros consigo. A ideia de acrescentar a esse lote outras obras, uma hipótese fascinante, foi-se tornando realidade. Na sua pequena casa em Vila Penha (Rio de Janeiro), ao longo dos anos seguintes, foram entrando centenas, milhares de livros, doados por pessoas e instituições. Hoje estimam-se em mais de 50 000. Formaram pilhas, invadindo todos os espaços, por cima e por baixo do mobilário, incluindo a cama do casal. Por todo o lado, cresceram como erva, erva boa, diz. 
Esta paixão tomou conta da sua vida. Há quem diga que é ténue a linha que separa a paixão da loucura. Evando não só organizou uma biblioteca pública para a sua comunidade, baseada no acesso directo e e fácil, como espalhou a boa nova pelos 4 cantos do Brasil. Em breve havia 50 iniciativas similares no país.
Evando transformou-se num apóstolo do lugar único do livro na educação das crianças. Anunciou que com os livros provocaria um “arrastão da leitura”. Os media levaram-no a todo o lado, tirando partido da sua capacidade de comunicador, que recita poemas e fala de Pablo Neruda, Machado de Assis e Tobias Barreto. A revista Globe votou-o em 2006 para os 100 brasileiros geniais. Anna Azevedo fez um documentário sobre este Homem-Livro que se julga também um Homem-Livre.
Um dia, ao escutar uma entrevista na TV com Oscar Niemayer, resolveu entrar em directo e pediu ao mais famoso arquitecto do Brasil um projecto para sua biblioteca. Niemayer aceitou, evidentemente. Evando conseguiu o terreno e o Ministério ofereceu comparticipação. O projecto tomou corpo. Mas a angústia de se separar da sua casa/armazém passou a morar com Evando.

Eleições no Instituto Politécnico de Leiria

10h45 - Entreguei à Secretária da Escola Superior de Artes e Design uma candidatura a representante da ESAD no Conselho Geral do Instituto Politécnico de Leiria. Na lista, como suplente, a Professora Teresa Fradique. 
A decisão que impõe à ESAD o regime de círculo uninominal (um só representante) parece-me no entanto irregular. Por isso me candidatei, sob protesto.
Dizem os Estatutos do Instituto Politécnico de Leiria recentemente homologados que "Os membros [do Conselho Geral] são eleitos pelo conjunto dos professores e dos investigadores do IPL, pelo sistema de representação proporcional, nos termos dos presentes estatutos". 
O princípio da representação proporcional é um princípio exigente, distinto do da simples maioria. Está consagrado, por exemplo, na Constituição como regime de apuramento dos círculos eleitorais. Onde se aplica este princípio, isso significa que o sistema eleitoral reconhece às minorias a representação no órgão submetido a sufrágio. O apuramento dessa representação faz-se segundo metodologias consagradas, sendo a mais usual conhecida como método de Hondt. "Assentando o sistema eleitoral português no princípio da representação proporcional  para todos os órgãos colegiais directamente eleitos é condição essencial que os círculos eleitorais sejam plurinominais, isto é, que elejam o número de representantes suficientes para permitir uma correcta aplicação da regra da proporcionalidade", escreve-se no Dicionário de Legislação Eleitoral, p. 85. 
Ora foi exactamente esse princípio que foi desrespeitado com a atribuição à ESAD de um único representante do seu corpo docente no Conselho Geral. Com um só representante não fica acautelada a representação proporcional.

Guarda-Livros (I)

sábado, 11 de outubro de 2008

Vantagem presidencial

Se o objectivo fundador da política é evitar a violência, de que forma a República se organiza para prevenir golpes militares? - foi o tema da lição das Provas de Agregação em Ciência Política realizadas em Julho de 2007 pelo Doutor Luis Salgado de Matos, na Universidade Nova de Lisboa. Resposta, em síntese: através de um Presidente de eleição directa (presidencial ou semi-presidencial). Elenco sumário das vantagens comparativas do Presidente sobre o Chefe de Governo no relativo à direcção estatal das Forças Armadas:
1) O Presidente gere os símbolos e a instituição castrense não sabe viver sem símbolos, medalhas, condecorações e festas fixas ou móveis.
2) O Presidente assegura a imunidade penal da instituição castrense.
3) O Presidente representa a organização política na sua unidade e o Chefe de Governo representa a instituição Estado.
4) O Presidente junta a autoridade carismática à legal e o Chefe de Governo apenas tem a autoridade legal.
5) O Presidente é o comandante militar supremo, o Chefe de Governo dirige a logística.
6) O Presidente é mais estável que o Chefe de Governo.
7) O Presidente é um órgão singular, ao passo que o Chefe de Governo, embora autonomizado, pertence a uma órgão colectivo.
Luis Salgado de Matos, "Formas de Estado e Forças Armadas. Presidente, Chefe de Governo, Assembleia e Instituição Castrense", 
separata de Relações Internacionais, Março de 2008


O autor acaba de publicar, pelo ICS, Como Evitar Golpes Militares, com Prefácio de Jorge Sampaio.
Capa (de João Segurado) reproduzindo quadro de Domingos Sequeira, Milagre de Ourique (1793). Cristo aparece a Afonso Henriques. Como escreve LSM, "O céu selava a união do chefe da organização política e do chefe castrense".

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A hora da política (III)

De hora a hora, com uma insistência arrepiante, o Le Monde debita para a minha caixa do correio: queda bolsista, as bolsas afundam-se, descida vertiginosa dos indices bolsistas. De imediato pensamos nas perdas das grandes empresas cotadas em bolsa. Mas, e o chamado "capitalismo popular"? Nos últimos anos, praticamente todas as (pequenas) poupanças individuais foram convidadas pelos bancos a fazer aplicações em acções. 
Com o sistema financeiro atravessado por este movimento descontrolado, a economia (a que agora chamamos, "curioso nome", real) corre o risco de parar pura e simplesmente.
Não será ocioso debater agora virtudes e defeitos do neo-liberalismo? Eu sei que não há nada mais prático que uma boa ideia, mas, sinceramente, não parece mesmo prático tentar ir buscar ideias a esse baú perdido no sótão.

"Recordar"

- Porque sou assim louco? - o velho sentou-se e começou a comer devagar, tirando uma ervilha de cada vez do prato que lhe tinha sido de novo colocado na frente. - Sim, eu sou louco. Como começou esta minha loucura? Aqui há muito anos, pus-me a observar as ruínas do mundo, as ditaduras, os estados e as nações depedaçados, e disse comigo: que posso eu fazer? Eu, um homem velho e fraco? Reconstruir toda esta devastação? Iso sim! Mas uma noite em que me encontrava meio a dormir, senti tocar dentro da cabeça um velho disco de gramofone. Duas irmãs chamadas Duncan costumavam cantar, quando eu era pequeno, uma canção chamada "Recordar". "Nada mais posso fazer do que recordar, querido. Por isso, recorda tu também!" Cantei essa canção e deixou de ser uma canção para se transfomar numa norma de vida. Que tinha eu para oferecer a um mundo que estava a esquecer tudo? A minha memória! De que podia isto servir-lhe? Fornecendo-lhe um termo de comparação, mostrando aos jovens como tudo era dantes, fazendo-os apreender tudo o que tínhamos perdido. Descobri que quanto mais recordava, mais conseguia recordar! Consoante as pessoas junto de quem me encontrava, lembrava-me de flores artificiais, telefones de marcador automático, frigoríficos, pífaros (o senhor já alguma vez tocou pífaro?), dedais, molas de bicicleta (refiro-me a molas para prender as calças dos ciclistas). Não é estranho tudo isto? Coberturas de sofás... Sabe o que é? Um dia um homem perguntou-me se eu me lembrava como era o tablier de um Cadillac. Eu lembrava-me e descrevi-lho com todos os pormenores. Ele ouviu e começaram a escorrer-lhe grossas lágrimas pela cara abaixo. Lágrimas de tristeza ou de alegria? Não sei dizer. Só sei recordar. Não conheço a literatura. Não, nunca tive cabeça para peças de teatro ou para poemas; passam-me de ideia, morrem. O que eu sou é um monte de restos de uma civilização que desapareceu num abismo.
Ray Bradbury, O Abismo de Chicago. Lisboa, Livros do Brasil, 1963 [1ª edição, em 1949]
Capa de Lima de Freitas.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Bonecos em barro

Um belo catálogo da Exposição "Figuras & Figurado" - informação cuidada, estudos diversificados, excelentes fotografias - editado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, para a edição da Feira Internacional de Lisboa realizada em Maio deste ano. Competente (e dedicada) coordenação editorial de António Júlio Valarinho.

"Vinda da América"


Uma bandeira nacional a servir de forro a uma saca, em Alcanena. Teresa Perdigão conta a história deste achado no seu blog.

Fortaleza de Peniche: serenidade e rigor


Se esta espécie de histeria de quem acordou tarde para os problemas continua, corremos o risco não só de não sabermos contra quem estamos a gritar, como de nem sequer percebermos o que é que estamos a discutir. Serenidade precisa-se, para podermos ouvir as razões em presença. E respeito pelo rigor, precisa-se também, para podermos defender o que merece defesa e atacar o que consideramos injusto. 
A Direcção do movimento "Não Apaguem a Memória" pediu uma reunião à Câmara de Peniche, que de imediato a realizou, de inteira boa fé. À saída, um dos membros da Comissão, declarou de imediato a sua posição pessoal e condenou a Câmara. Depois, o Movimento veio afirmar em comunicado "a sua firme oposição à construção duma pousada na Fortaleza de Peniche, comprometendo-se publicamente a desenvolver todos os esforços e mobilização cívica para que se impeça a transformação das antigas celas em quartos de um qualquer hotel de luxo". 
Mas quem é que defendeu tal solução? Onde é que este Movimento descobriu essa intenção?
A quem aproveita este tipo de desinformação?

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ramalho e Eça

Ainda a visita à Luis Burnay no passado dia 1. Tem aqui um livro pedido, do anterior catálogo, advertiram-me à entrada. Não me lembrava. Decorreram meses sem fim, perdidos. Mas os livros esperam. Mais do que os homens. Esperam pelos seus leitores, fielmente. Talvez saibam o caminho.
Era um livro de memórias, portuenses e jornalísticas, sobre Ramalho e Eça. Certamente encomendado com destino a uma "queirosiana" que agora não consigo encontrar. Que fazer com este livro solitário?


Fortaleza de Peniche: o que o Público não publicou


No dia 3 de Outubro um jornalista do jornal Público dirigiu ao Presidente da Câmara de Peniche 6 perguntas, a propósito das tomadas de posição de elementos do movimento cívico "Não apaguem a Memória" contra a construção de uma Pousada na Fortaleza de Peniche. Na peça que saíu, logo no dia seguinte, nem uma palavra das respostas do Presidente, enviadas no dia 3, foi publicada.

Público:
Quais são os termos do protocolo recentemente assinado com a Enatur?
Presidente da Câmara:
Em bom rigor essa pergunta não deveria ser dirigida à Câmara Municipal, mas antes, ao Turismo de Portugal.
De facto, no passado dia 25 de Setembro, foi celebrado um Aditamento ao Contrato de Cessão de Exploração existente entre o Estado, o Grupo Pestana e a Enatur (não é pois um protocolo) que, prevê a construção de 3 novas pousadas, entre as quais uma na Fortaleza de Peniche.

Público:
Sabemos que o projecto vem já de trás. Pode confirmar se a data da sua primeira apresentação é 1999?, e que partido detinha, nessa altura, a presidência da câmara?
Presidente da Câmara:
O Estado português enunciou a sua intenção de localizar na Fortaleza de Peniche uma Pousada ainda nos anos 80. A 12 de Julho de 2002 foi celebrado um protocolo entre a Direcção Geral do Património (DGP), a Câmara Municipal de Peniche e a ENATUR e em que se previa a cessão precária da Fortaleza à ENATUR. À época a Câmara era presidida pelo Partido Socialista.

Público:
De que modo está salvaguardada, no protocolo com a Enatur, a manutenção do espaço museológico do forte? Que espaço do forte vai ser afectado à pousada?
Presidente da Câmara:
No protocolo referido anteriormente previa-se que a DGP cederia à ENATUR “ as áreas do imóvel, a acordar em Protocolo Adicional, que forem consideradas necessárias e suficientes para a instalação da Pousada, de acordo com o estudo prévio a elaborar pelo projectista”. Previa-se ainda que a ”responsabilidade pela recuperação e utilização das áreas não cedidas, bem como das zonas comuns será devidamente estabelecida no mesmo Protocolo Adicional a assinar pela DGP, ENATUR e a CMP.” Nunca foi assinado qualquer protocolo adicional porque, simplesmente, nunca foi elaborado qualquer projecto. No discurso da sessão de assinatura do aditamento ao contrato, o Dr. Luis Patrão, Presidente do Turismo de Portugal, referiu-se claramente à necessidade de compatibilização dos usos com respeito pela memória fazendo referência à insistência que coloquei neste tema nas reuniões que mantivemos. Fiz, ainda, nessa cerimónia, um convite a todo o Conselho de Administração da ENATUR para uma reunião em Peniche para planearmos todas as fases do projecto. A Câmara tem-se responsabilizado pela manutenção parcial do espaço da Fortaleza e certamente acompanhará a elaboração do projecto por parte da Enatur. Queremos que seja um bom projecto, que valorize aquele grande espaço, de múltiplas e significativas memórias, tanto para Peniche como para o País.
A Câmara tem aliás dado um contributo valiosíssimo e insubstituível para a salvaguarda da Fortaleza. Sem esse contributo, a Fortaleza seria um espaço fechado e em degradação acelerada.

Público:
Que indicação tem de que o projecto possa ser assinado pelo arquitecto Siza Vieira?
Presidente da Câmara:
Sabemos apenas que fazia parte do contrato de exploração inicial a entrega ao arquitecto Siza Vieira do projecto da Pousada. A Câmara de então, no espírito de colaboração que mantemos, dispôs-se a mandar elaborar o levantamento digital do edifício, o que foi feito e entregue ao Arquitecto na sequência de deslocação deste à Fortaleza de Peniche.
As Pousadas de Portugal apresentam em regra projectos de grandes arquitectos portugueses. Para Peniche seria uma honra e uma mais-valia ter aqui uma obra assinada por Siza Vieira.

Público:
A associação Caminhos da Memória está a contestar esse projecto. A professora Irene Pimentel escreveu já que a afirmação do Senhor Presidente de que a pousada “será construída num local que é visitado por milhares de pessoas à procura da memória do que ali se passou” parece “uma anedota de mau gosto”. E acrescenta que falta em Portugal fazer um verdadeiro trabalho da memória, mas nunca com fins comerciais, como será agora o caso em Peniche... Como comenta estas críticas?
Presidente da Câmara:
Não conheço nenhuma associação "Caminhos da Memória". Há uma associação “Não Apaguem a Memória” que há dois dias nos pediu uma reunião de esclarecimento sobre este assunto e que já está marcada para a próxima semana. Quanto à autora do texto, aparentemente, o seu desconhecimento vai mais além do projecto. Desconhece a origem e a natureza deste processo.
A Câmara de Peniche tem protocolos de colaboração com diversas instituições, como a URAP, o seu programa municipal de intervenção museológico está contemplado no Plano Estratégico onde há especialistas de património e de história contemporânea. Em suma, não aceitamos lições de preservação de memória. Mas aceitamos todas as colaborações empenhadas e generosas, como decerto será a da ilustre historiadora Irene Pimentel. Se quiser vir colaborar connosco, recebê-la-emos de braços abertos, com a cordialidade e boa educação que nos honra.

Público:
Pode confirmar se o investimento previsto tem um orçamento de 15 milhões de euros. E que calendário prevê para a concretização do projecto?
Presidente da Câmara:
Estas perguntas deverão ser dirigidas directamente à Enatur.